02/21/2026
09:14:27 AM
WASHINGTON (AP) — A visão do presidente Donald Trump para a Suprema Corte americana, na qual seus três indicados seriam pessoalmente leais a ele, colidiu com a visão que o próprio tribunal tem de si mesmo na sexta-feira, 20. Seis ministros votaram para derrubar a principal política econômica de Trump: as tarifas globais impostas com base em uma lei de poderes de emergência.
O resultado levou Trump a lançar um duro ataque pessoal contra os ministros, com rancor especial reservado aos dois indicados por ele que o contrariaram.
O caso representou um desafio às muitas diretrizes de Trump — ainda não testadas, mas afirmadas com convicção — em temas que vão do comércio à política de imigração, bem como à capacidade da Corte de manter sua independência e, às vezes, agir como um freio à autoridade presidencial.
“A decisão da Suprema Corte sobre as tarifas é profundamente decepcionante e tenho vergonha de certos membros, absolutamente envergonhado, por não terem a coragem de fazer o que é certo para o País”, disse Trump na sala de imprensa da Casa Branca, várias horas depois de o tribunal divulgar sua decisão, redigida pelo presidente da Corte, John Roberts.
Trump afirmou que já esperava esse posicionamento dos três indicados por presidentes democratas. “Mas não se pode questionar a lealdade deles”, disse. “É algo que você pode fazer com algumas das nossas pessoas.”
Questionado especificamente sobre os ministros Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett, que integraram a maioria, Trump declarou: “Acho que é um constrangimento para as famílias deles, se você quer saber a verdade, os dois.”
O vice-presidente JD Vance, cuja esposa, Usha, passou um ano como assessora jurídica de Roberts, ecoou as críticas do presidente, embora sem torná-las pessoais. “Isso é ilegalidade por parte da Corte, simples assim”, escreveu Vance no X (antigo Twitter).
A oposição jurídica às tarifas atravessou linhas partidárias, com um desafio central vindo do Liberty Justice Center, de orientação libertária, e apoio de grupos pró-negócios como a Câmara de Comércio.
Trump tem um histórico conturbado com a Corte desde o início de seu primeiro mandato na Casa Branca, em 2017, embora tenha vencido sua maior batalha judicial em 2024, quando obteve uma decisão sobre imunidade presidencial que o impediu de ser processado por esforços para reverter sua derrota eleitoral de 2020.
No primeiro ano de seu segundo mandato, ele venceu repetidos recursos de emergência que lhe permitiram implementar aspectos centrais de sua repressão à imigração e outras partes importantes de sua agenda.
Críticas presidenciais a decisões da Suprema Corte têm uma longa história. O presidente Thomas Jefferson criticou o histórico caso Marbury v. Madison, que estabeleceu o conceito de revisão judicial dos atos do Congresso e do Executivo. O presidente Franklin Roosevelt, frustrado com decisões que, segundo ele, enfraqueciam partes do New Deal, chamou ministros mais velhos de debilitados e tentou ampliar o número de integrantes da Corte — esforço que fracassou.
Em 2010, o presidente Barack Obama usou seu discurso do Estado da União, com vários ministros presentes, para criticar a decisão recém-anunciada no caso Citizens United, que ajudou a abrir as portas para gastos independentes em eleições federais. O ministro Samuel Alito, que não comparece ao discurso anual desde então, murmurou “não é verdade” de seu assento em resposta.
Trump, porém, ultrapassou um limite na forma como atacou os ministros que votaram contra ele, escreveu em e-mail Ed Whelan, pesquisador sênior do Ethics and Public Policy Center e ex-assessor do ministro Antonin Scalia.
“É totalmente aceitável que um presidente critique uma decisão da Suprema Corte que lhe seja desfavorável. Mas é demagógico o presidente Trump sustentar que os ministros que votaram contra ele o fizeram por falta de coragem”, escreveu Whelan.
Alguns presidentes também criticaram ministros que indicaram por decisões que eles tomaram.
Após a histórica decisão Brown v. Board of Education, em 1954, o presidente Dwight D. Eisenhower teria dito a amigos que indicar o presidente da Corte, Earl Warren, foi seu maior erro, segundo o biógrafo Stephen E. Ambrose.
Ao se opor a um voto divergente em um caso antitruste, o presidente Theodore Roosevelt teria dito sobre o ministro Oliver Wendell Holmes, ferido em combate na Guerra Civil, que ele “poderia esculpir em uma banana um juiz com mais firmeza”.
Mas essas declarações foram feitas em privado, não em uma aparição presidencial transmitida ao vivo na sala de imprensa da Casa Branca.
No plano pessoal, Trump manteve uma relação às vezes tensa com Roberts, que já fez duas reprimendas públicas ao presidente por ataques a juízes federais.
Trump não mencionou Roberts pelo nome na sexta-feira, mas pareceu criticá-lo ao dizer que perdeu o caso porque os ministros “querem ser politicamente corretos”, “agradando a um grupo de pessoas em Washington”.
O presidente norte-americano usou linguagem semelhante quando criticou o voto de Roberts, em 2012, que manteve a reforma do sistema de saúde americano conhecida como Obamacare.
De forma semelhante ao que ocorreu após a decisão Citizens United, o presidente e alguns ministros da Corte, vestidos com suas togas pretas, provavelmente estarão na mesma sala na terça-feira, quando Trump fizer seu discurso do Estado da União.
A ministra Ruth Bader Ginsburg certa vez cochilou durante um discurso presidencial na Câmara dos Representantes, atribuindo sua sonolência a um bom vinho da Califórnia. Nenhum ministro deve estar dormindo na noite de terça-feira.
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